JUVENAL ALVARENGA

16/07/2007

O ÉBRIO

 

O ÉBRIO - A HISTÓRIA DE UM FILME

 

Esperei aproximados 60 anos para ver O ÉBRIO, filme de grande sucesso do cantor Vicente Celestino. Dia destes, estava só em casa e indeciso coloquei a cópia no aparelho. Quase desisti. No átimo desse titubeio e no silêncio mágico daquele momento voltei sessenta anos atrás. Devia ser lá pelos anos quarenta. Apesar de ser uma produção do então desprestigiado cinema nacional, o filme era um estrondoso sucesso..

Eu andava pelos meus 14 anos e já era fã de cinema. Comprador assíduo da Cena Muda. A magia daquele mundo de sombras me seduzia. O grande empecilho era estar estudando como aluno interno no Colégio Salesiano de Tupã. Os padres não permitiam saídas, nem a poder de rezas. E o que se fazia muito nesse internato era rezar. Maliciosamente escrevi ao meu Irmão Jayro, por saber que ele era fã ardoroso da voz do Vicente Celestino, sugerindo que viesse ver o filme em Tupã, porque demoraria muito a ser levado em Osvaldo Cruz. Na verdade não era nele que eu estava pensando, mas em mim mesmo. Ele vir ver o filme ou eu sair do internato eram possibilidades remotas. As regras do internato eram monacais e percorrer aqueles 50 quilômetros para atender ao capricho de um irmão caçula era fazer uma viagem que incluía a necessidade de um pernoite em hotel, no mínimo. E meu irmão nunca fora dado a esses arroubos fraternais.

Mas surpresa!!! Depois do jantar, um bedel anunciou que eu tinha uma visita na portaria. Lá estava meu irmão em carne e osso. Magro como sempre foi, era mais osso do que carne. Ir ao cinema já era por si algo pecaminoso para os padres e, ter que me ausentar do internato, tornava a coisa mais proibitiva ainda. Não houve argumento que demovesse o severo Padre Diretor. Meu irmão foi ver o filme sozinho e eu, aniquilado, tomei o rumo do longo dormitório dos alunos internos. Depois do “Benedicamus Dominus”, as luzes se apagaram e o silêncio se fez pesado. Dormi frustradíssimo. Inaugurei nessa noite uma de minhas primeiras revoltas contra as injustiças humanas. O que custava, meu Deus?...

Perdi a minha primeira oportunidade de ver O EBRIO. Perderia outras tantas em alguns poucos relançamentos do filme. E o tempo foi passando. Sinto que desenvolvi uma certa resistência em ver esse filme. Talvez tenha sido o desencanto pela injustiça dos padres. Ou, talvez, um medo inconsciente que a qualidade do filme me decepcionasse de alguma forma. Um certo receio de voltar a sofrer por um motivo ultrapassado. Mas nunca de todo superado.

Vieram, depois, a tela panorâmica, o cinemascope, o cinerama, a terceira dimensão, a televisão, o videocassete, o DVD, e a mídia dominou o mundo. Em contrapartida acabaram-se os cinemas.... e O EBRIO permaneceu no limbo de minhas lembranças. O filme não tinha apelos para uma transposição em vídeo por ser um procedimento de alto custo. Mas como nem tudo na vida está perdido para sempre, um dia veio a merecer uma versão em videocassete disponível apenas para locadoras. E aconteceu mais uma vez minha recusa em recorrer ao aluguel para assisti-lo. Finalmente uma edição em DVD me venceu e comprei uma cópia.

Ver o filme que é bom, nada. Só agora uma conjunção de forças me levou a essa extrema decisão. Juro que vacilei. A solidão, o silêncio, o sereno lá fora... os cães em plácido repouso... Ninguém para fazer perguntas inoportunas. Nenhuma testemunha se ao final eu chorasse pela saudade daquele momento único como se fosse um corte na minha história tão vazia de significados.

Vi o filme, adivinhado as cenas que já conhecia de tantas reportagens sobre essa obra tabular do cinema brasileiro. Esperei com ansiedade o momento em que o personagem, devastado pela bebida, diria a frase tabular do melodrama: “Eu disse que perdoava, mas não disse que me reconciliava”. A sentença ficou tão famosa como o improvável “play it agaim, San” de CASABLANCA. Lembram-se? Os cinéfilos de carteirinha se lembrarão de uma coisa e de outra.

Chorei entristecido, menos pela história e mais por saber que todos aqueles atores, e mesmo um inadvertido cão que perpassa a cena estão todos mortos. Uns deixaram memória. A maioria não. Fiquei atento aos créditos. Encontrei poucos conhecidos. Excluídos os personagens principais, todos, todos mortos ou de destino ignorado.

Se gostei do filme? Não cabe aqui esta avaliação. Certamente não é bom. É uma relíquia. E de uma relíquia não se registra a beleza. Registra-se a evocação. No filme o ébrio da historia confessa que bebe para não se lembrar das dores sofridas, e nesse sortilégio só fez tornar imortal a canção e seu cantor que “na bebida busca esquecer”... Eu mesmo, naquele momento cumpria esse cruel vaticínio porque embora relutante por tanto tempo quis relembrá-lo numa noite em que sua voz deve ter ecoado pelo silêncio de minha vizinhança... Sessenta anos depois que meu irmão Jayro a ouviu num remoto cinema da cidade de Tupã... talvez tão só como eu nessa madrugada

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Escrito por Juvenal Alvarenga às 14h56
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