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| 27/08/2011 |
KALEIDOSCÓPIO VIAGEM JUVENAL E JOÃO FILMADO EM SUPER 8 
visite o endereço abaixo http://www.youtube.com/watch?v=0HL8qWRSxDw
Escrito por Juvenal Alvarenga às 12h43
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| 27/07/2011 |
AVES MIGRATÓRIAS

AVES MIGRATÓRIAS Andei ausente deste Blog por um bom tempo. Voltei. Nem sempre as alegrias nos trazem de volta ao ponto de partida. As tristezas exercem melhor esse chamamento. Voltar é uma espécie de arrependimento. Ou, então, por que partimos? E nunca voltamos aquele mesmo da partida. “LAS GOLONDRINAS QUE PARECE QUE VUELVEM NO SON LAS MISMAS” Gosto muito destes versos de Benedetti, grande poeta uruguaio, pouco conhecido entre nós. Nessa pequena alegoria ele nos fala com singeleza da transitoriedade da vida. Aquela nuvem espessa de andorinhas migratórias que enegreceram os céus no ano passado e das quais nos despedimos com tristeza, agora voltam para nos alegrar com o alarido de seu arrulhar sobre as árvores. Ficamos felizes porque voltaram. Mas ledo engano. Não são as mesmas. Aquelas que partiram, faz um ano, cumpriram no longo caminho percorrido a inexorabilidade de seus destinos traçados pela festa e pela crueldade da natureza. Procriaram e morreram. As que parecem voltar são outras. A cada partida – se voltamos - também voltamos outro. Nunca o mesmo que partiu. Voltamos renovados ou empobrecidos, mas nunca os mesmos. É a lei da vida que desenha nossos destinos com o frágil carvão sobre um papel esgarçado. A brisa que sopra leve ou a tempestade que ruge nos transforma no fragor das alegrias e das tristezas. Aqui estou. http://www.youtube.com/watch?v=rIBjAV0zbF0&feature=related
Escrito por Juvenal Alvarenga às 08h46
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| 08/09/2007 |
AVARÉ SETEMBRO DE 2007
CORRESPONDÊNCIA ATIVA E PASSIVA

CARO JOAQUIM
Quando chove na madrugada e o céu amanhece nublado, baixa uma tristeza infinita aqui na chácara que inunda meu coração. Subo a pequena rampa que leva ao portão de entrada, seguido pelo atropelo dos cães e tenho vontade de chorar. Às vezes choro sentado num monturo de grama. As lágrimas são um bom analgésico e não têm tarja preta. Nem contra-indicação. Os cães parecem perceber meu desalento e silenciam à minha volta. Lambem minha mão como se fosse um abraço. Outros apenas olham sem entender o mistério da alma humana. Ou compreendem no seu silêncio. Depois me convocam a uma reação. Começam a correr e olhar como se me chamassem. Volto com eles e a vida continua.
Fico pensando nas coisas que fiz e nas coisas que deixei de fazer. Aquelas que fiz bem e aquelas que fiz mal. O saldo negativo sempre é maior. Não diria, como os falsos otimistas, que se nascesse de novo fariam tudo, outra vez, do mesmo jeito. Não, não faria. Não me arrependo do que fiz, porque o arrependimento é uma tolice. Não corrige nada. A vida é como a roleta: o jogo que foi feito, feito está. E se pudesse refazer alguma coisa, não sei como faria. Não sei onde erraria de novo nem onde corrigiria o que fiz de errado. Uma vida não se corrige. O corrupiê nunca volta atrás.
Sua carta, Joaquim, muito me entristeceu. Não só por você, mas pelo muito que nela me refleti. Você lamenta tantas coisas e percebo que também tenho os mesmos enredos a lamentar. Na balança da vida você teria mais motivos que eu para se alegrar. Uma família com filhos e netos. Uma carreira brilhante de professor. Um título de cidadão honorário que é o reconhecimento das fagulhas de seu amor divididas com seus alunos, pais de alunos e concidadãos desde que chegou á cidade de Guará que adotou como sua. A cidade foi reconhecida pelos anos de labuta que a ela dedicou. Quer melhor homenagem que o apodo de “professor saudade” que lhe foi outorgado pelos seus alunos ? Creio que tenho um quinhão nessas saudades pelo muito que vivemos juntos em nossos tempos de estudantes em Bauru e nossas tíbias aventuras de mocidade, inclusive, a temeridade de subir a um palco para representar autores famosos nos nossos arroubos de teatro estudantil. Até que fizemos sucesso, não fizemos? “Os Cegos” do Ghelderode, lembra-se?
Divago e volto a pensar na felicidade. Será que a parcela de infelicidade que experimentos hoje são os juros que deixamos de pagar pelos saldos de felicidades de ontem? Será que há um preço a pagar pelas alegrias que vivemos despretensiosamente? Ou será tudo culpa da idade que nos assalta como um malfeitor a nos golpear na calada da noite? Sei que passarei por este mundo sem compreender muita coisa. Até mesmo certas coisas que o conhecimento explica e o meu entendimento, muitas vezes não alcança.
Fico feliz (olha aí a felicidade que também nos assalta por algum flanco inesperado) por saber que você guarda de mim as mesmas lembranças que guardo de você. Lembranças hilárias, na maioria das vezes, que se transformaram em chistes que hoje contamos como se fossem piadas. Pelo menos para nós o foram, sob muitos aspectos. Também vivemos na lembrança dos amigos, como morremos no esquecimento deles mesmo. Neste instante me lembro de um filme de suspense e mistério que vimos há muitos anos no velho e hoje inexistente Cine Bauru e cuja charada do enredo você matou antes do desfecho final. Lembra-se? “As Diabólicas” do Henry-Geoges Clouzot.
Alguns minutos – e minutos num filme de mistério é uma eternidade – antes que o mistério se revelasse você deu um salto na poltrona e gritou: “matei, matei a charada”. Claro que não privou os espectadores vizinhos do prazer da revelação do enigma, mas seu “achado” foi o comentário daquela noite. Estou lhe enviando o filme para que lembremos juntos esse naco de saudades. Isso não nos tornará nem mais nem menos felizes. Mas poderá ser uma boa e saudosa memória. Mesmo porque a felicidade é como está inscrita na última cena de “Édipo Rei”: - “ninguém pode se considerar feliz antes que o pano baixe sobre o espetáculo de nossas vidas”.
Um grande abraço.
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PREZADO AMIGO,
Juvenal, meu único e verdadeiro amigo. Tive, em toda a minha vida de 71 anos, dois amigos: o Bodé e você. O Bodé foi toda a memória da minha tão solitária infância. Preencheu a falta de carinho, de companhia, de família, de uma meninice vazia de amor. Você foi o irmão que não tive, a compreensão que me faltou, e companheiro de toda minha juventude e a presença sempre constante ontem, hoje, agora e sempre. Quanto de minha atribulada história está no arquivo de sua memória? Quantos dos meus sentimentos estão no recanto mais afetuoso de seu afetuoso coração solidário e solitário. Quanto encanto e desencanto reparti com seu desencanto e canto? Juvenal, juvenil, você é símbolo de toda minha desvairada juventude. Eu escrevi você É e não FOI. Por isso, você, na minha memória e no meu coração sempre será, até quando eu já não FOR.
Não sou, portanto, meu amigo, refratário ao seu desejo de contatar-me por qualquer motivo, de qualquer lugar, a qualquer momento. Jamais terei remordimentos saudosistas vindos de você, porque sei que me estima como sou e como sempre serei, exclusivamente, para minha memória e para minha alegria.
Quero, ainda, neste momento, agradecer-lhe, não apenas o DVD, mas, principalmente por causa da lembrança. Em mim você sempre terá com quem repartir seus anseios e desejos nos momentos vazios de nosso envelhecimento. Aos “amigos” que se escafederam, seu desprezo e sua indiferença. A mim e aos seus cães, sua saudade.
Estou enviando-lhe um livro despretensioso, onde presto homenagem àqueles a quem, em algum momento especial de suas vidas, dediquei algum poema ou alguma canção, como forma de solidariedade ou contentamento. São poemas e canções exclusivos - portanto, contextuais. Você será exceção, pois somente os homenageados receberam um exemplar. Foi uma forma de conseguir ficar, quando eu houver partido para a saudade. Espero que o leia com ternura, pois foi somente por ternura que escrevi e dediquei à minha família e a pessoas especiais em momentos especiais.
Juvenal, para encerrar, quero segredar-lhe que me apóio em duas pilastras neste final de vida: Paciência e Coragem. Paciência, para suportar, coragem, para enfrentar. Eu e a Gleiyde desejamos-lhe, com muito afeto e saudade, que nossas colunas possam sustentá-lo também.
Joaquim
Guará, 21 de junho de 2.007
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Escrito por Juvenal Alvarenga às 07h52
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| 07/08/2007 |
AS CINZAS DE MEU IRMÃO

AS CINZAS DE MEU IRMÃO
Na vida cada um é cada um. Verdade que demoramos a
aprender. Queremos que os outros sejam o que deles esperamos. Esse é o
fundamento da grande batalha humana. Meu irmão Jayro acaba de falecer e escolheu
na morte a mesma solidão que cultivou na vida. Pediu aos filhos que cremassem
seu corpo, quem sabe para não compartilhar na morte das companhias que sempre
recusou em vida. Era um solitário por índole.
Nunca conseguiu conviver com os pais, com os
irmãos, com a mulher, nem com os filhos. Com os amigos, às vezes. É certo que
não agia assim por maldade ou desídia. Apenas queria ser só. Viveu isolado de
tudo e de todos. Passava anos sem aparecer. Deus sabe por onde andaria. Não
tinha outros vícios senão o de ser sozinho. Nem por isso foi um ermitão ou um
inútil. Apenas não se deixava estimar. As pessoas tinham por ele um respeito
quase religioso pelo algo de messiânico que moldava sua conduta. Se fosse um
pregador arrastaria multidões. Tinha carisma.
Plantou cafezais, cultivou pastagens, estudou a
terra que sulcava reverente com as mãos e com as máquinas. Ao mesmo tempo era um
ser primitivo e também um homem de conhecimentos. Sua solidão o levou sempre a
preferir ser empregado que patrão. Não gostava de mandar no que fosse dele,
porém mandava bem no que era dos outros. Por isso era requisitado. E dava conta
do recado. Foi vereador mas não gostava de associar-se a ninguém, nem a nada.
Não queria mais do que ser ele mesmo. Pensava como Ibsen que o homem só é o mais
forte. Agia com retidão para não fazer concessões.
Não foi fraterno com seus pais, com os irmãos, com
seus filhos nem consigo mesmo. Era coerente no seu voluntário isolamento. Viu a
sorte escapar-lhe pelos dedos inúmeras vezes e a dor ocupar o abismo que as
tragédias abrem em nossos corações. Um de seus filhos suicidou-se jovem ainda.
Gesto que abriga um infinito de motivações e nenhuma definitiva. A verdade se
vai com o ato tresloucado.
Nunca o vi chorar nem gargalhar. Apenas sorrir.
Talvez não quisesse ficar refém da felicidade, nem exaurir-se em sua busca.
Acredito, como irmão, que a alegria o incomodasse. A ventura é como uma iguaria
saborosa que uma vez degustada nos faz escravos da culinária que a produziu
porque queremos prová-la sempre outra vez. E sofremos quando a receita
desanda.
Uma vez uma de suas filhas me disse “nem sei se
tive um pai”. Tinha razão, porque também não tenho certeza de que foi meu irmão,
tão separados vivemos sempre.
Morreu no seio de sua segunda família e pediu que
cremassem seu corpo. Quis continuar só na morte sem deixar vestígios que fossem
como pegadas que seguidas poderiam levar a ele. Não quis compartilhar de nenhum
jazigo coletivo. Pediu que suas cinzas fossem espargidas num resto de floresta
perto da qual consumiu seus últimos dias para voltar a reintegra-se à Natureza
que sempre amou e de onde saiu um dia na forma humana que lhe deu nossa mãe que
cada um de nós amou a seu jeito e ele ao seu. Nunca fez alarde do seu carinho
que ela esperava reticente pedindo que compreendêssemos porque ele era assim...
E assim era mesmo. Ele era o Jayro que uma vez viajou quilômetros para me levar
ao cinema, o que não conseguiu, produzindo em mim a mais forte recordação que
tenho dele. Recordação na forma de uma saudade que hoje, na velhice e na doença
, me faz lembrar dele por algo que me quis fazer e não fez.
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Escrito por Juvenal Alvarenga às 12h40
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| 16/07/2007 |
O ÉBRIO

O ÉBRIO - A HISTÓRIA DE UM FILME
Esperei aproximados 60 anos para ver O ÉBRIO, filme de grande sucesso do cantor Vicente Celestino. Dia destes, estava só em casa e indeciso coloquei a cópia no aparelho. Quase desisti. No átimo desse titubeio e no silêncio mágico daquele momento voltei sessenta anos atrás. Devia ser lá pelos anos quarenta. Apesar de ser uma produção do então desprestigiado cinema nacional, o filme era um estrondoso sucesso..
Eu andava pelos meus 14 anos e já era fã de cinema. Comprador assíduo da Cena Muda. A magia daquele mundo de sombras me seduzia. O grande empecilho era estar estudando como aluno interno no Colégio Salesiano de Tupã. Os padres não permitiam saídas, nem a poder de rezas. E o que se fazia muito nesse internato era rezar. Maliciosamente escrevi ao meu Irmão Jayro, por saber que ele era fã ardoroso da voz do Vicente Celestino, sugerindo que viesse ver o filme em Tupã, porque demoraria muito a ser levado em Osvaldo Cruz. Na verdade não era nele que eu estava pensando, mas em mim mesmo. Ele vir ver o filme ou eu sair do internato eram possibilidades remotas. As regras do internato eram monacais e percorrer aqueles 50 quilômetros para atender ao capricho de um irmão caçula era fazer uma viagem que incluía a necessidade de um pernoite em hotel, no mínimo. E meu irmão nunca fora dado a esses arroubos fraternais.
Mas surpresa!!! Depois do jantar, um bedel anunciou que eu tinha uma visita na portaria. Lá estava meu irmão em carne e osso. Magro como sempre foi, era mais osso do que carne. Ir ao cinema já era por si algo pecaminoso para os padres e, ter que me ausentar do internato, tornava a coisa mais proibitiva ainda. Não houve argumento que demovesse o severo Padre Diretor. Meu irmão foi ver o filme sozinho e eu, aniquilado, tomei o rumo do longo dormitório dos alunos internos. Depois do “Benedicamus Dominus”, as luzes se apagaram e o silêncio se fez pesado. Dormi frustradíssimo. Inaugurei nessa noite uma de minhas primeiras revoltas contra as injustiças humanas. O que custava, meu Deus?...
Perdi a minha primeira oportunidade de ver O EBRIO. Perderia outras tantas em alguns poucos relançamentos do filme. E o tempo foi passando. Sinto que desenvolvi uma certa resistência em ver esse filme. Talvez tenha sido o desencanto pela injustiça dos padres. Ou, talvez, um medo inconsciente que a qualidade do filme me decepcionasse de alguma forma. Um certo receio de voltar a sofrer por um motivo ultrapassado. Mas nunca de todo superado.
Vieram, depois, a tela panorâmica, o cinemascope, o cinerama, a terceira dimensão, a televisão, o videocassete, o DVD, e a mídia dominou o mundo. Em contrapartida acabaram-se os cinemas.... e O EBRIO permaneceu no limbo de minhas lembranças. O filme não tinha apelos para uma transposição em vídeo por ser um procedimento de alto custo. Mas como nem tudo na vida está perdido para sempre, um dia veio a merecer uma versão em videocassete disponível apenas para locadoras. E aconteceu mais uma vez minha recusa em recorrer ao aluguel para assisti-lo. Finalmente uma edição em DVD me venceu e comprei uma cópia.
Ver o filme que é bom, nada. Só agora uma conjunção de forças me levou a essa extrema decisão. Juro que vacilei. A solidão, o silêncio, o sereno lá fora... os cães em plácido repouso... Ninguém para fazer perguntas inoportunas. Nenhuma testemunha se ao final eu chorasse pela saudade daquele momento único como se fosse um corte na minha história tão vazia de significados.
Vi o filme, adivinhado as cenas que já conhecia de tantas reportagens sobre essa obra tabular do cinema brasileiro. Esperei com ansiedade o momento em que o personagem, devastado pela bebida, diria a frase tabular do melodrama: “Eu disse que perdoava, mas não disse que me reconciliava”. A sentença ficou tão famosa como o improvável “play it agaim, San” de CASABLANCA. Lembram-se? Os cinéfilos de carteirinha se lembrarão de uma coisa e de outra.
Chorei entristecido, menos pela história e mais por saber que todos aqueles atores, e mesmo um inadvertido cão que perpassa a cena estão todos mortos. Uns deixaram memória. A maioria não. Fiquei atento aos créditos. Encontrei poucos conhecidos. Excluídos os personagens principais, todos, todos mortos ou de destino ignorado.
Se gostei do filme? Não cabe aqui esta avaliação. Certamente não é bom. É uma relíquia. E de uma relíquia não se registra a beleza. Registra-se a evocação. No filme o ébrio da historia confessa que bebe para não se lembrar das dores sofridas, e nesse sortilégio só fez tornar imortal a canção e seu cantor que “na bebida busca esquecer”... Eu mesmo, naquele momento cumpria esse cruel vaticínio porque embora relutante por tanto tempo quis relembrá-lo numa noite em que sua voz deve ter ecoado pelo silêncio de minha vizinhança... Sessenta anos depois que meu irmão Jayro a ouviu num remoto cinema da cidade de Tupã... talvez tão só como eu nessa madrugada
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Escrito por Juvenal Alvarenga às 14h56
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| 08/06/2007 |
LEMBRANÇAS DA CRISTINA
LEMBRANÇAS DA CRISTINA
Cristina não saberá que me lembro dela. Lembro e muito. Cristina
morreu faz anos. Era uma figura de mulher excepcional. Foi minha colega de
trabalho no SESC. Sempre chegava atrasada para desespero de seus chefes e com
aquele ar cansado de quem tinha ido dormir tarde.
Um dia chegou ao trabalho estremunha como sempre dizendo que eu
me parecia com o Millor Fernandes com quem estivera numa boate entre amigos. Não
me atrevi a perguntar por que viés do grande humorista se dava aquela parecença.
Se dissesse que era pelo lado da fisionomia eu me sentiria um pouco frustrado.
Hoje quando me vejo no espelho, tenho quase certeza que ela diria que a
semelhança era pela cara mesmo. Nem sonhar que fosse pelo talento do humorista.
Ou quem sabe, porque naquela época eu era bem metido a engraçadinho. Cristina
era magnânima.
Não era mulher de rara beleza. Tinha, porém, aquele condão
feminino de encantar as pessoas de espírito solerte. Longe de mim pensar que
fosse um deles. Era incrível seu rol de amizades entre os artistas de todos os
gêneros que pontificavam naquele inicio dos Anos de Chumbo, quando começava a se
firmar o poder arbitrário dos militares aboletados no poder da nossa sempre
vulnerável democracia. Essas lembranças me tomaram de assalto ao receber um
e-mail do um antigo colega de trabalho que me precedeu na amizade com a Cristina
e dela conservou também um punhado de boas lembranças. Revelou-me que quando a
conheceu era namorada do cantor Caetano Zema então começando a ter sucesso na
MPB daquela época. Parece que Zena não resistiu ao tempo... eclipsou-se nos
calcanhares da fama.
Escapulindo aos deveres do serviço era delicioso ir tomar um
cafezinho com a Cristina na esquina da São Luiz com a Praça da Biblioteca por
onde trafegava a mocidade boemia e engajada daqueles dias. No átimo entre um
café e outro sua companhia era sempre uma caixinha de surpresas. Seu visgo de
mulher sedutora atraia sempre um desfile das celebridades emergentes naqueles
meus dias deslumbramento com a grande cidade. Vinham ter com ela com a
descontração das velhas amizades nomes ainda não tão famosos como Ronaldo
Boscoli e Geraldo Vandré. Falavam de nomes ainda não tangidos pelas fímbrias da
fama como Maysa, Tom Jobim, e Vinícius ou, então, das arbitrariedades dos
militares. Algum amigo caído nas garras da repressão. Eram tempos que ainda não
se combatiam com fuzis nem metralhadoras, mas com a letra das canções de
protesto.
Cristina era íntima do pessoal da Bossa Nova com quem convivia
em noites de vinho e de rosas para no dia seguinte “bater cartão” e encarar um
trabalho de melancólica burocracia. Chegava mal dormida, porém nunca com a
empáfia de sua intimidade com a fama.
Uma noite convidou-me para um gole no bar do Teatro Ruth Escobar
onde levavam a peça Hair. Segredou-me que esperaria um namorado e não queria
esperar sozinha. E o pior: talvez eu tivesse que voltar sozinho para a cidade.
Tive. O namorado chegou para os mistérios da noite onde, certamente, não haveria
lugar para mim. O namorado era o Nuno Leal Maia no fragor de sua exuberante
mocidade.
Conheci dois dos maridos da Cristina, ambos de marcante atuação
naquele pequeno mundo da intelectualidade paulistana dos anos sessenta. Um deles
era o Massao Ono importante editor e animador cultural no mundo livreiro.Foi o
primeiro a editar o meu amigo, poeta “beat-nick”, Roberto Piva. O outro foi
Lúcio Kovarick professor da Usp. Visitei-a nesse dois casamentos ainda como seu
colega de trabalho. Numa noite, no apartamento da rua Cesário Mota tive duas
surpresas. A primeira foi a sopa de tomate feita em horas tardias pelo Carlos
Alfredo e a segunda foi quando alta madrugada toca a campainha e chega Rogério
Sganzerla já famoso com seu filme O Bandido da Luz Vermelha.
Cristina era assim, uma abelha mestra cercada de zangões da mais
alta estirpe cultural daqueles dias em que a mocidade ia passando célere sem que
percebêssemos as marcas que deixaria em nossas lembranças. A vida para nós ainda
era conjugada no presente contínuo dos verbos.
Há pouco tempo lendo um livro de Mário Prata, lá encontro
Cristina no rol de suas amizades mais indeléveis. Cristina não escrevia, mas
estava em todos os lugares e produzia histórias. Mesmo sendo seu amigo bissexto
vivi tantas com ela.
Um dia nossos caminhos se separaram. Ela deixou o SESC onde
continuei e não soube mais de suas andanças. Vim a saber que seu pai era médico
e que sua mãe se chamava Cleópatra – nome que detestava, com toda razão. A
Cristina, sim, tinha algo da rainha do Egito que encantava os homens e
destronava heróis da história. Cristina deve ter se destronado a si própria nas
asas dos sonhos dourados que vivemos letárgicos na penumbra dos bares e no
convívio com os anjos que trazem a beleza da arte e o delírio da vida no cortejo
que seus vôos noturnos.
Soube muito vagamente que faleceu em Brasília vítima de um
desses males que a gente mesmo inocula na carne como um avatar de suicídio
involuntário e que nos exonera da vida. A tristeza? A bebida? A desesperança?
Que vontade louca me deu de ver a Cristina... agora só no céu, se tivermos a
sorte de ser escalados para essa viagem.
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Escrito por Juvenal Alvarenga às 12h33
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| 05/04/2007 |
OBTUARIES
OBTUARIES

“GOOD NIGHT, SWEET PRINCE, AND FLIGHTS OF
ANGELS SING THEE TO THY REST”
Parece que vou me enveredar por um sendero
funéreo. E vou mesmo. Pretendo, entretanto, pegar leve. Acontece que há alguns
anos assino uma revista americana de cinema - dos tempos em que se era feliz e
se morria em preto-e-branco - que traz um vasto obituário das pessoas ligadas ao
cinema que faleceram aproximadamente no período de cada edição mensal. É morte
para funerária nenhuma botar defeito. A revista se chama Classic Images e não é
nenhum primor gráfico. Acostumei-me a ir direto a essas páginas para saber quem
se foi desta vez e para sempre. Claro que os distintos defuntos mais famosos
invadem os noticiários da “mídia” muito antes da revista vir a lume. Assim o
necrológio da revista é meio requentado. Salvo no caso de nomes que lamberam a
fama apenas de raspão, e outros que já se lambuzaram nela há muito tempo e hoje
estão esquecidos. Mas a morte, muitas vezes, ´é que melhor explica a
vida.
Não cultuo a morte a não ser a minha própria que
vou adiando sempre que posso com a ajuda dos esculápios de plantão. Graças a
eles, tão empertigados, com seus prateados estetoscópios no pescoço é que
saltamos de uma média de 30 anos de vida para mais de setenta. Nem por isso os
cemitérios com seus indefectíveis habitantes deixam de exercer um certo fascínio
em mim. E de quebra a morte também.
Os cemitérios são a última morada de quem lá
chegam, sem deixar de ser adoráveis pontos de atração turística, para aqueles
que podem voltar, claro. Entre os mais visitados está o Pere-Lachaise de Paris,
onde estão Chopin, Balzac, Abelardo e Eloísa, Edit Piaf, Oscar Wilde, Maria
Callas e tantos outros nomes do nosso convívio cultural São um pouco nossos
mortos também. Em Buenos Aires sempre se pergunta por La Ricoleta, onde está
Evita Perón. No cemitério da Consolação estão a Marquesa de Santos, que faz
milagres segundo alguns, e a atriz Iália Fausta. Cacilda Becker está no Araçá.
Nossos mortos mais recentes, Ayrton Sena e Ellis Regina estão no Morumby... E la
nave vá.
O cemitério de Hollywood tem o sugestivo nome de
FOREVER. Equivalente, mais ou menos, ao nosso “Saudade” . Estive lá uma vez. Não
vi tantos nomes famosos como esperava. Estes são mais numerosos na Calçada da
Fama onde chegaram e saíram vivos. Muitos destes debandaram aos primeiros
rugidos da velhice e foram morrer em outras plagas. Outros preferiram a cremação
e suas cinzas vagueiam microscópicas pelas ondas do mar.
Impressionou-me, de dar um nó na garganta, a tumba
de Tyrone Power. Quem viu seus filmes sabe que ele foi um homem despudoradamente
bonito, porém, nunca fez pose de belo. Aceitou quase todos os papeis que lhe
ofereceram. Tirou de letra a pecha de “galã” aplicado aos atores sem muito
talento. Casou-se duas vezes. Teve filhos. Nunca se importou com os sussurros de
que fosse homossexual. Flanava por sobre todas essas misérias humanas. Morreu
ainda na maturidade sem chegar à velhice e trabalhando. Caiu em cena como se
interpretasse o último papel de sua vida, tendo ao lado a bela Gina
Lololobrigida. Por isso ganhou um epitáfio saído da pena de Shakespeare que ele
não ousaria interpretar, mas que é um especial fotograma de sua alma. A
sentença, que se lê no pórtico deste texto, está num inglês arcaico, e recomenda
aos anjos esse memorável ator:
“BOA NOITE DOCE PRINCIPE E VOE ATÉ OS
ANJOS QUE CANTAM PARA SEU REPOUSO” - não é de chorar?
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Escrito por Juvenal Alvarenga às 19h10
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| 15/01/2007 |
RAUL ROULIEN
Avaré, 13 janeiro 2007
MEU VIZINHO RAUL ROULIEN
 Leio longa matéria de Ruy Castro, no Estadão, que me foi enviada pelo
Flavio, amigo de Campinas. Conta a história do primeiro ator hollywoodiano
brasileiro que pouca gente conhece: Raul Roulien. Eu também quero meter minha
colherinha de café nessa história. Um verdadeiro golpe da sorte me fez dele um
quase amigo. Ou, pelo menos, um dia, vertemos lágrimas
uníssonas.
Sabedor de sua fama fugaz no cinema
americano (para dizer pouco, participou do filme que lançou a dupla Fred Astaire
e Ginger Rogers), lá por volta dos anos 35, do último século, tive curiosidade
de saber se ele estava vivo ou morto e mais que isso por onde andaria.
Empenhei-me até o limite iam minhas forças e meus relacionamentos. Pergunta
daqui, pergunta dali e nada. Ninguém sabia onde estava e poucos quem fosse essa
figura. O máximo que me diziam é que devia estar metido em propaganda e que eu
pesquisasse junto as agências. Não me dei a esse trabalho e fiquei guardando a
curiosidade enquanto comprava o quase nada que havia disponível sobre o ator.
Aliás, cantor também. O melhor que consegui foram algumas fotos em revistas como
Cinearte e Scena Muda bem antigas. Algumas delas com ele na capa. Consegui a
duras penas um livreto do Museu Da Imagem e do Som com sua reduzida biografia.
Já era alguma coisa. E a busca prosseguia.
Queria mais. Saber onde estaria essa fugidia efígie. Vivo?
Morto? Faltou-me lembrar apenas de uma velha prédica de meu ex-chefe Amin Aur
segundo a qual devemos “insistir no óbvio” em qualquer circunstância. Pois não
me ocorreu a lista telefônica, logo ali, empoirada nos subterrâneos da mesinha
de revistas da sala do apartamento. Pois bem: paga-se pela burrice. Precisei
pesquisar o telefone de alguém com o sobrenome Rodrigues. E Rodrigues começa com
“r-o” assim como Roulien. Não é que antes do Rodrigues, encontro o próprio Raul
Roulien? Era de não se acreditar. Ali estava seu nome inteiro, em prosa e verso,
e principalmente número do telefone, endereço com todos os efes e
erres.
Podem me chamar de mentiroso que não reclamo ao bispo. E provo
com escrituras, extratos bancários, conta de luz e outras formalidades. Eu
morava na Rua Brasilio Machado n. 292 e o Raul Roulien no prédio em frente, num
número ímpar como mandam os dispositivos municipais, não mais que 293 ou 297. Um
pequeno edifício muito meu conhecido porque o achava bonitinho e cobiçava ter um
apartamento nele. Mais que isso, seu zelador já havia ocupado o mesmo cargo no
prédio em que eu morava. Tudo em casa. Claro que telefonei imediatamente.
Atendeu-me sua terceira (ou seria outro o ordinal?) esposa . Era sabedor de seu
segundo casamento com a então famosa na época Conchita Montenegro. Sabia ainda
que uma tragédia se abateu sobre sua primeira mulher, morta atropelada por
alguém não menos que John Huston sabidamente embriagado. Num rumoroso processo
Roulien ganhou a causa indenizatória, mas perdeu as chances de continuar no
cinema americano. Não gostaram da petulância daquele latinosinho nas barbas de
Tio Sam. Mas isso são outras estórias.
Pelo telefone fui informado, gentilmente, que o meu inesperado
achado estava muito mal, com esclerose avançada e não falava mais. Mas que se
olhasse pela janela do meu apartamento o veria no portão do prédio tomando Sol,
assistido por um enfermeiro. Perguntei se poderia chegar até ele e a gentil
senhora concordou, achando que não conseguiria muita coisa. Mesmo assim muni-me
das revistas que tinha com as fotos do ator, principalmente na capa, e desci
correndo. O enfermeiro concordou sisudo com minha aproximação e ao ver as
revistas com as fotos de seu assistido até que melhorou a cara.
Este não é um momento para se descrever com detalhes. Senti-me
um pouco constrangido com meu gesto intempestivo. Ao mostra-lhe as fotos os
olhos do Raul se acendiam como numa revelação e sem poder dizer nada chorava,
chorava muito. Não resisti e chorei também. Delicadamente seus dedos trêmulos
tocavam os botões de minha camisa o que me enternecia mais que minha resistência
podia suportar. . Chorávamos ambos.
Voltei a vê-lo mais algumas vezes. Aproximava--me com cuidado. E
antes das lágrimas me afastava. Claro que chorando assim mesmo. Um dia o zelador
me parou na rua para dizer que “seo” Raul tinha morrido. E acrescentou que
subindo ao apartamento para socorrer a viúva nas demandas da morte viu que havia
muitas fotos de gente famosa com quem ele convivera no passado. Mal podia ele
imaginar quanto.
 
Escrito por Juvenal Alvarenga às 07h01
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| 08/11/2006 |
O MAU PASSO DE INGRID BERGMAN
O MAU PASSO DE INGRID
BERGMAN
Há alguns anos gravei da TV o filme STROMBOLI que marcou a
estréia da grande atriz Ingrid Bergman no cinema italiano, depois de ter
abandonado estrepitosamente sua carreira em Hollywood. Esse detalhe não vem ao
caso. Cada um casa com quem mais lhe apetece. E Ingrid deixou um casamento
sereno para cair nos braços e um italianinho gordo, careca e (dizia-se) de muito
talento, chamdo, todos sabem, Roberto Rosselini, na ´poca casado com outra
grande estrela, essa italiana mesmo, Anna Magnani. Foi chumbo para todos os
lados. As revistas de fofocas e outras nem tanto se esbaldaram. Logo depois do
fim da 2ª. Grande Guerra o filme ROMA, CIDADE ABERTA, de Rosselini, abalou as
estruturas do cinema americano pondo de lado o glamour dos estúdios e inundando
as telas com o que se convencionou chamar de neo-realismo. Ou seja, uma nova
maneira de mostrar a vida como ela é. Sem os maneirismos do cinema ameriano que,
então, dominava o mundo Pegou.
Ingrid Bergman conta em sua biografia que ficou fascinada quando
viu esse filme, levado despretensiosamente num cineminha de bairro de Los
Angeles. Pensou logo que era seu dever de artista aderir a esse novo chamamento
da arte cinematográfica. Enviou um telegrama ao diretor Rosselini onde dizia que
se ele precisasse de uma atriz com sotaque sueco era só chamá-la que ela iria.
Conta-se que quando o telegrama chegou ao seu destino, o escritório de Rosselini
foi vitima de um pequeno incêndio e quase toda a papelada se perdeu. Como o
destino escreve certo por linhas incertas, algum tempo depois o pequeno
papelucho com a mensagem chegou ao conhecimento do diretor. Bem, resumindo a
ópera tornaram-se amantes, casaram-se fizeram filmes e fizeram filhos. Hollywood
perdeu sua grande estrela, bela, talentosa e fidelíssima esposa de um dentista
que veio com ela de sua Suécia querida, quem sabe para reviver o mito de Greta
Garbo. O que de certa forma reviveu.
STROMBOLI estava há anos na minha coleção do filmes gravados.
Não sei bem, mas creio que por um certo desencanto com a atitude de Ingrid
Bergman nunca tive vontade de ver o filme. Nem nos cinemas quando foi lançado
aqui no Brasil, nem quanto passou na televisão. Já previa minha decepção. E não
deu outra. O filme aqui para meus botões é uma droga. Não chega a lugar nenhum e
tenta a todo tempo compor ângulos exploratórios com a rosto da ainda bela
estrela, numa crassa imitação das belas fotografias americanas que sabiam como
ninguém valorizar a beleza de suas estrelas.
Durante a evolução do pobre enredo de uma refugiada guerra
(loira e sofisticada) que se casa por necessidade com um pescador italiano
fiquei pensando no mau passo que deu Ingrid Bergman com essa mistura de amor e
arte vindo a cair em dois sacos sem fundo: o próprio Rosselini e seu destino
como atriz . Nenhum dos dois produziu outro sucesso igual àqueles que os fizeram
amantes e esposos. Se o amor valeu a pena, então ta. Que belos filmes ainda
teria feito ela se permanecesse nas mãos dos competentes e profissionais
diretores americanos, bastando citar Hitchcock, entre tantos outros de igual
quilate. Sua beleza continuaria sendo valorizada. Seu talento explorado, sua
vida seguiria mansa e sem tropeças ao contrario do torvelinho em que se meteu
nos braços do italiano gordinho e fazedor de filhos. Vendo Stromboli me ocorreu
que no ano de seu lançamento surgiu aqui no Brasil a tentativa da Vera Cruz de
fazer filmes com engenharia mais profissional. O primeiro filme dessa empresa,
CAIÇARA foi, garanto, levemente inspirado em STROMBOLI, seja na história, seja
em certas seqüências onde a ilha vulcânica da Itália e substituída pela natureza
rude de uma ilha do litoral paulista na qual se passa o filme brasileiro. Ambos
frutos do pacote pretensamente desmistificador do “realismo italiano” que noves
fora teve lá seus méritos. Pelo menos sacudiu a arte de fazer cinema que nunca
mais foi o mesmo.
--------------xxx--------------
Nota. Tenho o filme Stromboli e de quebra Ciçara também. Se
alguém quiser conferir esta e outras afirmações é só pedir. Meu “personal
copietor” João terá prazer em enviar-lhes. Beijos.

Escrito por Juvenal Alvarenga às 20h02
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| 06/11/2006 |
MINHAS RELAÇÕES COM HOLLYWOOD
MINHAS
RELAÇÕES COM HOLLYWOOD
O título pode ser cabotino e pretensioso. E é mesmo. Só conheço a capital do cinema pela rama. Como diz a Lygia Fagundes Teles todo aquele que escreve é um dissimulador. Eu não sou diferente. Aumento aqui,diminuo ali. Sempre a meu favor, claro. Até quando admito meus erros e minhas fanfarronices. E os vexames - ái meu Deus! – que vergonha de alguns deles. Se os conto é sempre do meu modo.
Sempre gostei de
cinema. Nem sei porque. Ninguém me incentivou para isso. Apenas aconteceu. Assim
como um destino. Imagino até que seja por narcisismo: me projetava na figura
romântica dos atores. Devia querer ser igual ao que eles eram na tela. Nem
imaginava que pudessem ser diferentes na vida real. Para mim eram o que diziam
deles (e sempre bem) as revistas e suas próprias imagens no escurinho dos
cinemas. Personificavam sempre a felicidade, finalmente alcançada depois de
alguns percalços. Sou da época do “happy end” obrigatório por lei nos Estados
Unidos. O bem vencia sempre. O cinema tinha que ser educativo. E assim foi por
muitos anos.
Imagino que o
cinema foi uma mosca perversa que me mordeu um dia. Até os oito anos morava em
uma fazenda sem qualquer contado com alguma coisa que ao menos de longe se
parecesse com cinema. Um dia minha avó morreu – ou terá disso meu avô? Naquela
época, final dos anos trinta, a morte removia montanhas. As famílias se reuniam
ao peso de muito sacrifício. Tirava-se fotos. Chorava-se. Vestia-se luto. Meu
pai alugou um fordeco e lá fomos nós para o velório. Horas e horas de viagem. A
precariedade das estradas fazia tudo mais distante. No meio do caminho, uma
parada obrigatória, para os passageiros se aliviarem, lancharem, esticarem as
pernas. Essa parada foi em Duartinha que ficava a alguns quilômetros de Espírito
Santo do Turvo, nosso destino final.
Não sei se
estávamos num bar, num hotel, numa rodoviária. Mas lá longe estava o cinema da
cidade. Um cineminha, mas de qualquer forma, um cinema... uma porta larga, a
bilheteria, alguns cartazes anunciando os próximos filmes. Um cinema. Ora, um
cinema “comme il faut”. . Eu nem sabia como era um cinema. Só alguns anos depois
entraria num deles. Senti-me atraído como que por imã. Saí escondido de meus
pais e fui até àquela porta misteriosa que escondia mil segredos e que me
chamava. Fui, olhei e voltei. O cinema voltou comigo. Para sempre.
O cinema era uma
coisa distante. Mesmo depois que me tornei intimo dos filmes e das programações,
o cinema era algo que existia lá em Hollywood. Não havia como tocar as fimbrias
de sua essência. Apenas suas sombras chegavam em forma de imagens às telas no
retângulo sombrio das salas de projeção. Terminada a sessão, a claridade do dia
lá fora ou o lusco fusco das luzes noturnas quebrava todo aquele sonho feito de
sombras e sons na tela. Essa foi para mim a magia do cinema por muitos e muitos
anos. Magia que foi se quebrando aos poucos... tão aos poucos que eu mesmo não
percebi.
Minha alma
queria sempre desvendar os segredos guardados pelo muro intransponível que havia
para além daquelas imagens que se desvaneciam ao acender das luzes. Creio que
persegui esse mistério a vida inteira. Será que não o persigo ainda?

Continua
Escrito por Juvenal Alvarenga às 23h51
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MINHAS RELAÇÕES - CONTINUAÇAO
Primeiro foram os títulos em
inglês. Toda manhã ia à porta do cinema na minha pequena cidade e copiava o
título dos novos filmes em inglês para traduzi-los em casa. Aprendi, pelos,
menos que quase nunca eram fieis ao original. Mas isso pouco importava.
Ajudava-me entender melhor a proposta dos enredos. “Now, Voyager” era “Estranha
Passageira”... bem, forçando a mão até que era a mesma coisa.
Depois vieram as cartas.
Descobri que podia escrever para os artistas e eles mandariam fotos
autografadas. Foram centenas de cartas que me traziam aquela gente distante e
quase irreal que me tocavam a alma como um santo toca o espírito dos crentes.
Existiriam além daqueles sorriso glamurosos? Todo esse “tour de force” resultou
num vasto álbum que hoje repousa num quando das estantes que guardam restos de
minhas memórias. O que farão destes sorrisos os que vierem depois de mim? Nada,
certamente.
Então, o cinema se tornou uma
arte séria. Tema de leituras, discussões, infindáveis polemicas sobre diretores,
atores, revistas especializadas. Uma vontade louca que o cinema nacional fosse
tão bom como o estrageiro. Mas não era. Será agora? Com a inauguração da
Companhia Vera Cruz imaginava que a rua São Luiz em São Paulo bem que poderia se
transformar na nossa Via Vêneto onde se embebedavam as figuras mais decantadas
do cinema italiano. Ou, então, a Boate Mocambo de Hollywood em cujas mesas se
podia ver a nossa Carmen Miranda em reportagens da revista Carioca ou A Cena
Muda. A vida é sonho... como dizia Calderoan de la Barca.
Triste é quando os sonhos se
desvanecem . Um dia me vi trocando recadinhos com dois ou três daqueles mitos
etéreos do cinema da minha mocidade. Não com muitos, nem com os mais famosos que
já havia se despedido ao peso bruto da morte. Mas, de qualquer forma, gente
daquele mundo fugidio que o vento levou. E levou mesmo, porque hoje nem existe
sombra daquela Hollywood que eu sonhava como se fosse um conto da Caronchinha...
A Caronchinha que se carunchou.
Um dia me vi em San Diego, na
Califórnia, ali pertinho de Hollywood. Achei que não devia perder a ocasião de
conhecer a já velha capital do cinema. Reservei uns caraminguás e num
fim-de-semana tomei um ônibus fui lá. Não vi quase nada. Nem ao menos uma sombra
da Betty Grable cruzando a Sunset Boulevard, ora pois. Apenas me senti pisando o
mesmo chão que um dia fora palmilhando por grandes celebridades que povoaram
meus sonhos.
Depois foi o “BOY, o mais
famoso dos filhos de Tarzan que eu conheci pelo nome - Jonhny Sheffield – e de
quem recebi algumas fotos naqueles tempos das cartas que chegavam a velha
agência dos correios de quando a cidade de Osvaldo Cruz ainda se chamava
Califórnia. Era uma grande emoção a chegada daqueles envelopes com o nome
estampado daquelas celebridades tão distantes quanto etéreas. Mas um dia... um
dia chegou a Internet e tudo ficou mais fácil e mais banal. Um dia me vi
trocando e-mails com o próprio Boy, agora, um velho senhor, comercializando seus
filmes antigos e a procura de compradores. Claro que um comprador do Brasil –
esse pais distante – chamou sua atenção e ele quis saber mais do meu interesse.
Chegamos a “conversar” futilidades. A construção de sua casa nova em Chula
Vista, as filhas... enfim, ele como gente e não como a figura buliçosa, montando
elefantes na selva africana que eu aprendi a gostar nas telas das
matinês.
Outra foi Dorothy Lamour, com
seus longos cabelos negros. Estava em Nova York fazendo um curso a mando de
minha empresa. Ligo a televisão bem de manhãzinha e quem me aparece num programa
bem ao estilo da Ana Maria Braga? Ela própria falando de sua autobiografia cujo
lançamento seria por aqueles dias e convidava seus fãs. Claro que fui. E lá
estava ela já sem seus longos cabelos negros de “rainha das selvas” e
autografando The Other Side of the Road. Não comprei , por pura timidez e por
economia também. Apenas me contentei de ver a grande estrela. Um pouco mais de
atrevimento e coragem e teria falado com ela. Hoje lamento ter perdido essa
grande chance.
“Quem procura acha”: nada mais
verdadeiro. Ao longo da vida continuei dando chances à sorte para encontrar
esses antigos avatares da memória. Recentemente fiz uma inusitada amizade com
uma antiga estrela de Hollywoood que não chegou a fazer fama por aqui. E quando
digo aos amigos que recebi um e-mail de Sara Shane todos perguntam assustado:
quem é essa? Eu sei, é o que importa. Seus filmes não fizeram sucessos por aqui.
Na sua envelhecida memória ainda fulguram cenas e personagens daqueles dias que
o cinema povoou de sonhos minhas ilusões. Sara me mandou uma foto. Claro que de
quando era bela e tinha o brilho de uma estrela fulgurante. . Hoje, envelhecida,
é como os santos para os crédulos. Os santos são figuras intimas do paraíso,
porque vivem lá. Os velhos ídolos também surgem trazendo nos restos de memórias
esgarçadas lembranças de um mundo de sonhos que fazem grande alvoroço em nossa
imaginação.
--------------------------XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX---------------------------
Preciso enviar um e-mail à
Sara Shane com a foto de minha cadela que teve cinco filhotes porque ela me
disse que também teve vários cães, os quais amava e que hoje estão no “heaven of
dogs”... espero que se agrade com a notícia que vou lhe dar.

Escrito por Juvenal Alvarenga às 23h36
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UMA VIOLA DE DIAMANTES
UMA VIOLA DE
DIAMANTES
A biografia de Truman Capote no cinema
me emocionou. Autor bissexto Capote foi um escritor muito irregular. Mesmo assim
considerado dos maiores nos Estados Unidos no século vinte. Sua obra pra valer
se resume a dois livros: Bonequinha de Luxo e A Sangue Frio. Conheci-o através
de um conto que de vez em quando releio e que de certa forma é premonitório de
seu contado com os dois jovens criminosos que assassinaram uma família indefesa
no Kansas, tema de A Sangue Frio sua obra definitiva. Uma Viola de Diamantes é a
pequena história de um romântico delinqüente latino que cumpre pena por roubo
numa granja prisional e que nas noites de luar costuma dedilhar sua viola
cravejada de falsos diamante. Tão sem valor como sua própria vida. No frio
dormitório da prisão coube-lhe um catre ao lado de Mr. Schaeffer, outro
prisioneiro já de idade avançada. Ambos se afeiçoam. Numa manhã nevoenta ambos
põem em prática um audacioso plano de fuga. O velho sabe que não terá forças
para transpor os limites da prisão e quer apenas ajudar o amigo que tem pela
frente uma vida inteira enquanto ele só tem a morte. Tico Feo é o nome do rapaz
que ajudado pelo vigor de sua juventude ganha el mundo e Mr. Schaeffers herda,
apenas, sua viola de diamantes que mal dedilha nas noites solitárias imaginando
o amigo, quem sabe, cruzando uma rua sórdida de La Habana.
Truman Capote, foi ele mesmo o melhor personagem de suas
histórias. Um renomado e incorrigível enfant terrible até morrer ao sessenta
anos por excesso de alcholl e comprimidos. O filme não conta toda sua vida
restringindo-se ao período em que se relacionou com os dois criminosos e com os
quais veio a ter uma controvertida relação de afeto e cinismo. Como o velho
prisioneiro do conto também se apaixonou por um dos jovens condenados à morte.
Histriônico e careteiro tinha voz melosa e fazia coreografias com as mãos ao
falar. O conteúdo de suas frases era sempre carregado de ironias e
maledicências. Dava festas fabulosas e era atração esperada em todas as outras
até que caiu em desgraça e passou longos anos no ostracismo pelas maldades que
cometeria até que cometeu algumas que o high society nova-iorquino não lhe
perdoou aplicando-lhe o devido corretivo.
Como as duas figuras que biografou no romance-reportagem A
Sangue Frio ele também era filho escorraçado de uma família desorganizada que
foi sempre indiferente a sua educação e seu futuro. Sentia-se como se fosse da
mesma família dos condenados. Como se eles tivessem saídos para o mundo pela
porta dos fundos enquanto que ele saiu para porta da frente. Tiveram destinos
diferentes mas oriundos da mesma matéria humana.

Escrito por Juvenal Alvarenga às 22h18
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UMA DOR MUITO GRANDE
UMA DOR MUITO GRANDE
Não sei quantas vezes meu coração foi visitado pela tragédia.
Nem sei se foi alguma vez. A fita métrica com que se medem as grandes e as
pequenas dores são elásticas e sua matéria é o sentimento que não tem peso nem
medida. A tragédia é única em cada coração. Nem para dois irmãos que choram a
mesma perda são iguais.
Já tive grandes perdas. Nenhuma com a chancela da tragédia.
Foram todas eventos da vida. Da minha vida. Certamente esses mesmos eventos
marcaram outros corações com diferentes intensidades. Nunca senti o torpedo de
um pranto lancinante. Nem sei se vou sentir um dia. Os sentimentos também são
aprendidos com o beabá da infância. Por isso me espantei, com o meu espanto,
quando li entre os e-mails que recebo diariamente um que se anunciava como “uma
dor muito grande”. Era meu amigo Cláudio que foi tangido pela tragédia de ter um
irmão no avião da GOL que se acidentou matando todos os passageiros. Desde esse
momento passei a ver o noticiário do desastre pelos olhos do meu amigo. Foi a
maneira pela qual a tragédia me atingiu. E atingiu de resvalo, mas frontalmente,
quando para milhões de pessoas do Brasil e de outros paises apenas aguçou-lhes a
curiosidade como aguçara a minha até então. Certamente houve aqueles que foram
muito mais atingidos do que eu: os parentes, os conhecidos diretos... O destino
não tem regras nem caminhos. Vai criando sua lógica e sua trilha à medida que
avança. Contabilizo essa desgraça como a primeira tragédia, digna desse nome, a
me sangrar mais fortemente o coração. Por isso mesmo minha solidariedade ao
Cláudio. Solidariedade que não ajuda em nada... quase nenhuma solidariedade
ajuda alguma coisa, mas é ainda uma forma de sentir as tragédias que se abatem
sobre o mundo das verdades e vão além do imaginário dos palcos shakespereanos...
e de tantos outros que nos socorreram na busca do entendimento dos sentimentos
humanos...
Escrito por Juvenal Alvarenga às 22h18
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TARZAN EM SEU LABIRINTO
TARZAN EM SEU LABIRINTO

Uma noticia ao mesmo tempo melancólica e evocativa: morreu o
filho do Tarzan. O filho verdadeiro. Não aquele das selvas que a censura da
época não permitiu que ele gerasse com Jane no calor de uma noite de verão em
sua cabana no topo de uma árvore africana. Esse filho, loiro e de olhos azuis
não veio pelas asas da cegonha, mas trouxe-o um prosaico avião desgovernado que
caiu na floresta e ele salvou com seu grito que arregimentava um exército de
elefantes. Esse filho - o Boy - parece que ainda vive setentão num bairro de San
Francisco que ostenta o pouco simpático nome de CHULA VISTA. Sei disso porque
não pouco tempo troquei e-mails com ele pelas asas da saudade e da
Internet.
O filho de Tarzan que faleceu nestes dias não foi gerado pela
ficção do cinema. Nasceu de um dos primeiros casamentos de John Weissmuller, num
orgasmo indiferente à censura americana que tolheu o cinema por muitos anos
e que foi o mais veraz Tarzan do cinema. Recebeu o nome famoso do pai, mas não
herdou a sua fama nem a beleza olímpica que lhe valeu o inesquecível personagem
nas telas de todo o mundo. O Tarzan Junior morreu anônimo e apenas uma revista
de cinema que cultua os velhos ídolos de Hollywood e a eles e seus correlatos
dedica uma seção de obituários deu a infausta notícia. Pelo breve texto fica-se
sabendo que também se dedicou ao cinema sem sucesso algum. Não passou de um nome
perdido nos créditos do final da projeção de alguns poucos filmes.
Talvez o que tenha feito de melhor foi escrever uma biografia de
seu pai famoso à qual deu o nome de TARZAN, MY FATHER que eu gostaria de
ler. Se alguém tiver o livro me empreste, por favor. Quero saber mais desse
herói que acalentou minhas matinês perdidas no tempo e sepultadas no antigo
Cine São José da pequena cidade de Osvaldo Cruz. Quero me entristecer mais
uma vez de saudades como me doeu no coração saber que o atlético e destemido
Tarzan também um dia morreu quase anônimo depois de consumir suas derradeiras
chamas de glória numa casa noturna de Acapulco que dedicava a ele uma pequeno
espaço na noite dos turistas quando lhe cabia subir cambaleante ao palco para
arremedar seu grito de antigamente e com esse esgar ridículo ganhar os trocados
de seu último sustento.

 
Escrito por Juvenal Alvarenga às 22h17
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PAGINA INICIAL
VILLA KYRIAL

Escrito por Juvenal Alvarenga às 22h00
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